Dossiê HBO: entenda a visão do canal através de sua programação menos conhecida

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Durante muito tempo desde sua criação em 1972, a HBO cultivou uma programação de esportes, comédias e filmes feitos para a TV que ajudou a despontar vários atores e criadores hoje já consagrados (Robbin Williams, Judd Apatow, etc.), e que não podia se comparar a nenhum outro canal a cabo. Mas quando surge em 97 a série OZ, o canal se reinventa e sustenta o que seria seu mais famoso slogan: não é TV, é HBO. A série, que tem como pano de fundo uma prisão experimental, ultrapassou a barreira de tudo o que estava sendo feito pra TV, ousando não somente ao discutir sobre sexo, política e violência de uma forma nunca vista antes com tanta crueza gráfica e verborrágica, mas também na sua própria estrutura, construção de personagens e situações. Em uma aposta arriscada, a HBO mantém o programa durante 6 temporadas, ganhando confiança para abrir caminho para que outras séries pudessem se desenvolver da mesma forma. Hoje, temos shows como Six Feet Under, The Sopranos, Sex and the City, The Wire e outras, que já são marcos da produção televisiva mundial, com formas e temas inusitados o bastante para desafiarem os limites de tudo o que estava sendo feito a época em que foram transmitidos.

Desde então, outros canais surgiram e tentaram trazer essa ousadia para casa, como o AMC (Mad Men, Breaking Bad) e Showtime (Dexter, Weeds), e mesmo passando por uma fase de descredulidade sobre até quando eles conseguiriam manter a qualidade da programação, a HBO continuou colocando no ar alguns programas que possuem uma visão única, mas que acabavam não agradando tanto a audiência, causando seus inevitáveis cancelamentos. Pensando nisso, escolhemos alguns programas que podem ter se perdido no tempo, ou na sombra de outros, que trazem essa visão de sempre desafiar o espectador a repensar conceitos sobre TV, e porque não, a própria vida.

Paradise Lost Trilogy (1996, 2000, 2011)

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O que é: Em 1994, os 3 adolescentes Damien Echols, Jessie Misskelley e Jason Baldwin foram julgados e condenados como adultos pelo brutal assassinato de 3 crianças em West Memphis, Arkansas. Dividido em 3 episódios que foram feitos ao longo de 15 anos, o documentário nos guia pelo clima de histeria social e imprecisão judicial que cercou (e ainda cerca) o caso.

Porque ver: Pela primeira vez na vida, a banda Metallica permitiria que suas músicas fossem usadas em um filme: dois dos acusados assumiam que eram fãs da música da banda, argumento que foi injustamente utilizado em um julgamento que teve como armas principais o preconceito e a indiferença. Mesmo com a insuficiência de provas, os 3 jovens foram acusados de matarem os garotos em um ritual satânico, tornando difícil acreditar que somente porque um deles se vestia de preto, usava cabelo grande, ouvia Metallica e lia livros da Wicca, seria óbvia sua capacidade de organizar um ritual que tinha como objetivo estuprar e sugar sangue de membros decepados de crianças de apenas 8 anos. Apos a exibição do primeiro documentário, artistas e grupos sociais ao redor dos EUA sairam em defesa dos acusados, denunciando um sistema judiciário falho e ainda fundado em preconceitos, sentenciando penas de morte com base em cores de roupa e preferencias culturais. A terceira parte chegou a concorrer no Oscar 2012, e livros e estudos já foram feitos sobre o caso, inclusive outro filme produzido pelo próprio Damien Echols e Peter Jackson, chamado West of Memphis.

The Comeback (2005)

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O que é: Valerie Cherish (Lisa Kudrow) foi uma It girl de sitcoms americanos. Esquecida pelo tempo, aceita participar de um reality show sobre sua volta aos estúdios de TV.

Porque ver: The Comeback é um programa sobre outro programa dentro de outro programa. A ideia é tão engraçada quanto parece confusa, e Lisa Kudrow oscila entre o drama e o pastiche para retratar a inocuidade do mundo dos reality shows. O show durou apenas 13 episódios, mas já consta em varias listas como um “novo clássico” da TV americana. A serie é feita apenas de raw footage, nos dando imagens permitidas (e outras nem tanto) pela atriz, discutindo sobre realidade e plasticidade com um texto inteligentíssimo e situações constrangedoras que nos questionam o tempo todo: quem estamos acompanhando, e qual o valor, para nós e para a artista, de ter sua vida retratada de forma sensacionalista? Vale tudo pela fama, inclusive para resgatar uma já perdida?

Carnivale (2003)

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O que é: Visões lynchianas, Bem vs. Mal, Destino vs. Liberdade, misticismo e circo: em uma das séries mais ousadas que a HBO já criou, acompanhamos a jornada do protagonista Ben Hawkins e um circo de freakshows durante a Depressão americana, enquanto tenta descobrir seu papel em um mundo cercado de poeira e mistério.

Porque ver: O primeiro episódio da série foi um marco de audiência na HBO, mas seu desenvolvimento lento e um pouco
complicado afastou o público tão rápido, que suas iniciais e planejadas 6 temporadas foram reduzidas para 2, transformando o programa em um cult instantâneo e talvez um dos cancelamentos mais injustos da história do canal. Bizarro e hipnotizante, seguimos dois protagonistas que aos poucos vão se encontrando e construindo sentido, sempre cercados por batalhas ideológicas e teológicas. A falta de rostos bonitos ou conhecidos, a densidade dos assuntos e a estrutura inovadora da série são sempre levantadas como principais causas de seu cancelamento, mas para a base de fãs da série que só vem aumentando com o tempo após o lançamento em DVD, isso é o que torna a série em um marco de originalidade na TV.

Extras (2005)

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O que é: Co-produção britânica entre a BBC e HBO, acompanhamos em 12 episódios a vida de atores desiludidos que só conseguem trabalho de extras nas mais variadas produções, almejando apenas mais 1 segundo na filmagem, ou quem sabe até ter uma linha de fala.

Porque ver: “Ricky Gervais é o gênio que criou The Office” deveria ser tudo o que você precisa pra correr e assistir Extras, mas ainda vamos dizer que a cada episódio, temos uma participação especial pra tornar as situações mais constrangedoras do que deveriam ser, e alguns desses nomes são: Daniel Radcliffe, Patrick Stewart, Ian McKellen, David Bowie, Orlando Bloom e Samuel L. Jackson.

Tell Me You Love Me (2007)

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O que é: Cancelada após uma temporada, a série retrata a vida sexual e as dificuldades de relacionamento de 4 casais, que buscam no sexo uma solução para resolver, ou entender seus problemas pessoais.

Porque ver: Durante sua exibição, a série causou bastante polêmica em torno das cenas de sexo. Idosos se masturbando e fazendo sexo oral, sexo nada comportado e partes íntimas mostradas por completo podem ter assustado alguns espectadores no começo, e até desviado o foco de atenção da série, que traz o tema do sexo entre casais de uma forma mais madura e pouco retratada. Ao contrário do que muitas obras abordam, eles não buscam o sexo perfeito ou a fraca ilusão de que isso traria uma harmonia pra vida cotidiana, mas o sexo, sendo ele bom ou ruim, ou até inexistente, é o ponto de partida para uma discussão profunda sobre as bases de um relacionamento entre duas pessoas e como conviver com diferentes ideologias sobre o que significa o sexo, a vida e as expectativas criadas em cima de cada um desses fatores.

The Boys From Baghdad High (2007)

 

O que é: 4 jovens de diferentes religiões no Iraque ocupado realizam video-diários de seu último ano no colegial, retratando de uma forma íntima e única suas dificuldades para estudar, se deslocar pela cidade, ou até de encontrar um sentido em meio ao desespero e o caos que toma conta do país.

Porque ver: Indo contra a demagogia nacionalista que ocupava a maioria dos noticiários americanos durante a ocupação no Iraque, e o eventual julgamento e execução de Saddam Hussein, essa co-produção entre a HBO e outros canais da Inglaterra, França e Alemanha nos traz um olhar sincero sobre pessoas arrastadas para o caos de uma guerra que não diz nada para eles, cujo em um momento se perguntam qual o sentido de uma guerra por um petróleo que eles mesmos não conseguem comprar pra ter energia em casa. É assustadora a capacidade que eles têm de falarem sobre bombas, amizade, Britney Spears e provas finais de uma forma um tanto natural, mas a tristeza em suas palavras se faz entendida, pois precisam continuar se apegando a alguma centelha de esperança de que suas vidas podem ter um rumo diferente, seja após a aprovação em alguma universidade, ou a tentativa de uma mãe conseguir um passaporte para o filho, que sofre de uma burocracia fundamentada mais em questões religiosas e sociais (o simples fato da mãe ser uma divorciada pode impedir que o seu filho consiga o passaporte para sair do pais), do que políticas.

The No. 1 Ladies’ Detective Agency (2008)

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O que é: Minissérie baseada em uma série de livros detetivescos que acompanha uma agência de investigação apenas de mulheres em Botswana, na região sul da África.

Porque ver: Mais uma co-produção entre BBC e HBO, essa comédia traz uma visão de uma Botswana economicamente estável e uma cultura muito forte e conservada. O programa teve 6 episódios e foi cancelado devido a baixa audiência, mas traz fortes marcas da audácia do canal. É considerado o primeiro filme/show totalmente filmado em Botswana (o filme Os Deuses Devem Estar Loucos foi filmado parte lá, parte na África do Sul), possuindo uma narrativa visual fortíssima que não perde em nada para a linguagem cinematográfica, mas que pode ser subestimada pela leveza com que o drama entre os personagens é tratado. Em situações como roubos, desaparecimentos e outros temas caros a literatura policial, vamos conhecendo o fascinante cenário de Botswana e as peculiaridades de uma cultura que tenta se manter mesmo com a invasão da cultura européia (mais especificamente britânica) de seu passado colonial.

The Corner (2000)

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O que é: Produzida e baseada em um livro do escritor David Simon, que por sua vez se baseia em fatos reais, a minissérie de 6 episódios retrata o cotidiano de uma família e sua luta diária contra as drogas em um subúrbio de Baltimore. A série viria depois ser considerada como um prólogo à premiada The Wire.

Porque ver: Algumas séries carregam uma marca tão forte de seus criadores, que fica difícil após um tempo falar de um sem falar de outro. Quem acompanha Grey’s Anatomy e Community, por exemplo, já é familiarizado com os nomes Shonda Rhimes e Dan Harmon, pegando emprestado do cinema o conceito de auteur e trazendo para a TV. Mas talvez o nome mais importante dos últimos 15 anos seja também o mais ignorado: David Simon. Ex-jornalista e escritor, criou 4 programas estimadíssimos por público e crítica ao redor do mundo: The Corner, Treme, Generation Kill e The Wire. A última, considerada a melhor série já feita na história da TV, retrata de uma forma única e segura o submundo do tráfico e sua luta diária com uma polícia cada vez mais descrente de seu objetivo, do lobby político, e de minorias ignoradas por um país com estruturas cada vez mais abaladas por preconceitos e descasos. The Corner nos mostra um pedaço desse mundo, trazendo a visão de famílias sem esperanças, que se voltam as drogas e ao tráfico como maneiras de sobreviverem em um ambiente cada vez mais hostil. David Simon é um visionário, sempre trazendo à tela personagens tridimensionais, às vezes interpretados pelos próprios protagonistas da vida real, usando ex-prisioneiros, ex-viciados e ex-traficantes como atores de sua própria história, alguns desses seguindo carreira até hoje na atual Treme, cujo tema central é a reconstrução das vidas dos atingidos pelo furacão Katrina e a força do jazz como fio condutor. Assistir uma série que leva seu nome é sempre uma experiência única e avassaladora, obrigatória a quem gosta de sempre ser questionado sobre o papel da TV na construção de uma discussão democrática entre grupos até então distintos dentro
da sociedade.

Pornucópia (2004)

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O que é: Serie-documentário que retrata a indústria pornô da Califórnia, com depoimentos de atrizes, produtores e críticos, que discutem os benefícios e dificuldades de se manter em um mundo volátil e de rápidas transformações.

Porque ver: Q: “Você faz sexo anal?”

                         A: “Amo, até me masturbo lá”.

Viagra, internet, relacionamentos e preferências de posições, um depoimento mais excitante e edificante que o outro. Sexo para heavy users!

Tanner 88 (1988)

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O que é: Falso-documentário sobre um obscuro representante do partido democrático, Jack Tanner, e sua campanha eleitoral para presidente dos EUA.

Porque ver: A linguagem do falso-documentário ultimamente tem sido bastante explorada por comédias, mas ao retratar as multiplas visoes de participantes de uma campanha presidencial nos EUA, o excelente diretor Robert Altman (se ainda não viu, corra pra assistir o filme Prêt-à-Porter) traz a forma para retratar o tamanho dos problemas, interesses e ideologias que surgem por trás do desejo de controlar o país mais poderoso do mundo. Misturando drama político e pessoal entre Tanner e seus representantes, e também sua filha (a atriz Cynthia Nixon, que viria a ser a Miranda de Sex and the City em atuação incrível), acompanhamos seu desgaste enquanto ele tenta encontrar uma voz para dirigir sua vida e seu trabalho. Em 2004, Altman voltaria ao mundo de Tanner em Tanner on Tanner, dessa vez mostrando a personagem de Cynthia Nixon realizando um documentário sobre a antiga campanha do pai, amarrando assim pontas que ficam soltas no final da minissérie, finalizando um projeto de metalinguagem maduro e inusitado que dificilmente se repetirá na história da TV.

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EDRD

Eduardo Pininga - 25 anos, pesquisa música e estuda jornalismo.

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