Face, walk, hands: Paris is Burning e a cena ballroom

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O mundo inteiro é um palco
E todos os homens e mulheres não passam de meros atores
Eles entram e saem de cena
E cada um no seu tempo representa diversos papéis

De representação à contratos, são várias as teorias que tentam explicar ou lançar uma luz sobre o porque o homem vive em sociedade. Sem acesso à dados mais antigos, cientistas sociais usam pequenas comunidades, tribos ou organizações e suas idiossincrasias para entender melhor os motivos que levam tais pessoas a se juntarem por um objetivo comum. Limites econômicos, geográficos, políticos e culturais são alguns desses fatores, e a partir do choque entre idéias, as concepções de cultura e contra-cultura são postas em jogo. Um filme dos anos 90, pouco conhecido mas bastante cultuado, registra o momento de ouro de uma forte expressão cultural que se tem como perdida, mas que na verdade encontra-se em pleno processo de revigoramento: Paris Is Burning e a cultura do ballroom.

A origem do ballroom remonta à Nova York dos anos 30, quando drag queens se reuniam em locais escondidos (nessa época era expressamente proibido aos homens usarem roupas femininas em público) para realizar disputas de fantasias, escolhendo e premiando as mais absurdas e exageradas. Tais reuniões eram chamadas de “balls” (baile ou festa), e negros e latinos gays, em sua maioria vindos da região do Harlem, eram proibidos de participarem. Mas tal proibição não impediu que esses grupos realizassem seus próprios balls, trocando a ridicularização das roupas pela celebração, e usando espaços maiores para receber um número cada vez maior de participantes e curiosos. Até os anos 60, Allan Kaprow e Marcel Duchamp ainda davam forma ao que viria ser conhecido como a arte da performance, realizando intervenções que aliavam as artes cênicas às plásticas em busca de novas significações e interpretações do meio. No entanto, as drags já chamavam seus atos de performance, e isso constituia um ball à moda antiga: pessoas de qualquer gênero, classe ou etnia desfilando ou realizando uma performance diante de um júri, com o intuito de ganhar prêmios. A partir dos anos 70, a cena passa por uma rápida evolução que vai marcar suas principais características até hoje, como a fundação das casas ou famílias, expansão das categorias de competição, e as performances adquirem um novo nome e sentido: Vogue.

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O filme Paris is Burning, da diretora Jenny Livingston, é um extrato do considerado período dourado do ballroom (Paris is Burning é o nome da maior festa do período, criada pela Paris Dupree), no fim dos anos 80. Nessa época o vogue já estava desenvolvido, um novo vocabulário já podia ser ouvido pelas ruas (shade, reading, mopping, realness e kiki) e as disputas para entrar em uma casa eram comentadas durante dias. House of LaBeija, Pendavis, Xtravaganza, Ninja: uma família ou casa é um grupo de pessoas reunidas sob um mesmo nome, unidas pelo preconceito que as excluiu da sociedade dominante. Ao desfilar por um ball, não importa se você foi abandonado pela família, se passou pela prostituição ou pelas drogas, ou se o mundo além da porta não reconhece seu direito de existir por suas opções sexuais: você é o personagem que deseja ser, você tem o poder que consegue transmitir, you own everything! O objetivo e critério essencial das personificações nas competições é simples: você tem que ser capaz de emular perfeitamente o papel do outro, a perfeita representação da imagem que você quer ser. Ao acompanhar os depoimentos do filme, notam-se fotos de atrizes, celebridades e socialites espalhados pelos cômodos dos personagens, como silhuetas de um mundo imaginário que ganham vida apenas nas noites dos balls.

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A evolução da performance para o vogue vem desse desejo de pertencer à classe alta, incorporando as posições das modelos de revistas como Vogue em movimentos de dança e ginástica, com beleza e fluidez. Movimentando as mãos, mostrando atitude e dominando a expressão corporal, o voguer intenta a todo tempo chamar a atenção para ele, ou tirar a atenção do adversário, by being fierce. O ballroom ganha notoriedade no mainstream a partir dos anos 90 graças a dois personagens: Willie Ninja e Madonna. Falecido em 2006 devido a complicações derivadas da AIDS, Willie Ninja é o criador da casa Ninja e reconhecido como o melhor voguer até hoje. Dançarino desde os 8 anos, dedicou sua carreira ao desenvolvimento e divulgação do vogue pelo mundo, ajudando na evolução tanto da dança como da música durante os anos 90, participando do vídeo do Malcolm Mclaren “Deep In Vogue”. Com a ebulição do house e do hip-hop nessa mesma década, o vogue deixou de ser apenas uma dança e começou levar suas características para a música, gerando hits como “The Ha Dance“, “Cunty” e “Walk 4 Me“, que são sampleadas à exaustão pelos músicos da nova geração como MikeQ e Divoli S’vere.

Quase todos os legendários que fizeram o nome da cena ballroom se perderam ou sofreram muito com a AIDS nos anos 90, fazendo do documentário uma peça chave para gerações futuras sobre o espírito e significado da cena (a RuPaul não deixa uma temporada do Drag Race sem fazer referência ao filme, com desafios que testam a arte de voguing e reading das participantes). O senso de comunidade e entretenimento dos americanos é um forte fator para a manutenção dos balls. O filme Rocky Horror Picture Show, por exemplo, virou um cult devido às reuniões anuais no halloween que os americanos realizam em diferentes estados, onde muitos jovens que vão à essas reuniões acabam de uma forma ou de outra tomando conhecimento dos balls, já que são parecidos na essência de que são reuniões de pessoas fantasiadas desafiando as noções de gênero. Outras pequenas aparições do vogue foram no programa America’s Best Dance Crew com o grupo Vogue Evolution, e nos documentários How Do I Look e Wigstock.

Apesar da fraca exposição, balls são realizados em todo o território dos EUA e tem passado por um crescente reconhecimento graças à internet. Centenas de vídeos de competições, festas (o maior ball hoje, Vogue Knights, acontece em um clube em NY chamado Escuelita), tutoriais e novas personalidades da cena tem aparecido nas redes sociais, mostrando a energia e a força da nova cena, que até já divide o vogue em old skool e new way (ou femme queen), com movimentos mais atléticos e mais exigentes como os famosos spins, dips, ou shablam! Mas o crescimento mais evidente dentro dessa renovação foi na parte musical: Beyonce, Rihanna, Ciara e Azealia Banks já vinham incorporando alguns elementos de vogue em suas músicas e coreografias,  mas só a partir de 2008, com nomes como MikeQ, Divole S’Vere, Zebra Katz, nguzunguzu e Kingdom, o vogue surge como um gênero pleno e pronto pra se integrar à nova geração dos produtores de EDM.

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Eduardo Pininga - 25 anos, pesquisa música e estuda jornalismo.

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