VHS – Halloween a la italiana

Empapuçou-se de Spaghetti no Dia Mundial do Macarrão? Então se segura, que trouxemos ao VHS dessa semana algo que vai revirar seus olhos também (e não é de fome): sangue e violência italianos!

Mais conhecido como terror spaghetti, o gênero giallo é uma perola na cinematografia mundial. Com sua produção mais prolifera entre o fim dos anos 60 e fim dos 80, o gênero trouxe a tona assuntos, estilos e talentos que ate então tinham uma abertura pálida no cinema europeu e americano. O Expressionismo Alemão trouxe grandes avanços no uso da iluminação e de seus cenários, e Hitchcock fez e refez como nenhum outro a ideia do que é cinema e como contar uma história pura e visualmente. A influência desse último nos cineastas da Nouvelle Vague francesa talvez tenha sido o grande pivô para que seu cinema de horror psicológico chegasse na Itália pós-guerra, e então o palco estaria feito: influenciados pela literatura pulp que transbordava nas bancas, com histórias que envolviam nudez, crimes, paranoia etc., (dai que advêm o termo giallo, que significa amarelo, e faz referência as páginas amarelas com que eram feitos os livrinhos), cineastas começaram a criar grandes obras de terror de orçamento baixo e qualidade técnica que deixariam qualquer um de cabelo em pé!

Bruxaria, distúrbios psicológicos, monstros e escatologia, tudo banhado em muito sangue e gritaria: o suspense é a chave mestra para desenvolver as histórias, que afligem e fascinam. Durante o tempo, atrizes, diretores e estilos particulares foram estabelecendo os conceitos e formas do giallo, e até hoje são reconhecidos grandes talentos que participaram nessa época e ainda influenciam outros cineastas, como o Dario Argento, Mario Bava, Ennio Morricone e Edwige Fenech. Escolhemos aqui 7 filmes que passeiam por várias dessas fases, e que construíram alguns ícones da cultura POP como a conhecemos hoje. Se banha no sangue falso e se agarra no braço mais próximo, because the monsters will rise tonight!

As Três Mascaras do Terror (Mario Bava, 1963)

Expectativas sobre o nosso primeiro filme não serão frustradas: foi daqui que o baixista Geezer Butler tirou o nome da banda Black Sabbath (seu titulo em ingles). Dirigido pelo mais biografado diretor do gênero, Mario Bava, e estrelado pelo Boris Karloff, o filme contem três pequenas historias que envolvem fantasmas, vampiros e serial killers. Aqui Bava não constrói o seu medo com sangue e maquiagem fantásticas, mas com uma direção segura e uma bela fotografia, usando diversas cores pra criar um clima soturno, fantasmagórico e único. O terceiro segmento, “O Pingo D’Água“, e’ o melhor dos três e conta a historia de uma enfermeira que enquanto rouba o anel de uma defunta, derruba um copo d’água e vai ser perseguida pelo som das gotas até sua casa, tento um encontro mortal com o espirito da defunta. A aparição é assustadora, e o desfecho do filme é um dos mais emblemáticos da historia!

Suspiria (Dario Argento, 1977)

Recentemente, Argento fez um filme chamado “Você Gosta de Hitchcock?“, reiterando sua principal influencia no Mestre do Horror. Apesar de seus últimos filmes não terem tal força, seus mais antigos, como o Suspiria, são provas irrefutáveis do talento do diretor e de como o cinema é uma arma perfeita para causar medo. Suspiria conta a historia de uma garota que vai a uma escola de bale na Itália, pra descobrir que na verdade la é a base de um covil de bruxas que tem como único proposito causar destruição e caos. O filme é bastante sustentado pela sua incrível fotografia e música (a trilha sonora talvez seja seu personagem mais forte), motivo pela qual muitos dizem que serviu como argumento inicial para o “Cisne Negro” do Aronofsky. A paranoia também esta presente nos dois, inclusive algumas cenas gráficas (um espelho enfiado na barriga de alguém), mas aqui o desfecho é uma obra-prima da bruxaria e da loucura sobrenatural.

Your Vice Is a Locked Room And Only I Have The Key (Sergio Martino, 1972)

Seu titulo, que me recuso a reescrever aqui só para aumentar o texto, talvez tenha em comparação ao seu tamanho a abrangência dos temas do giallo que o compõem belamente: um maniaco e pervertido escritor vira o principal suspeito numa serie de mortes, e sombras de incesto, necrofilia, perverção, loucura e declínio recheiam a historia, que é livremente adaptada em Black Cat do E. A. Poe. Seu titulo é uma referência a um filme anterior do Martino, onde um assassino deixa um bilhete para sua vitima com tal frase, que também era a atriz Edwige Fenech, uma especie de Bardot dos giallo: meta-linguagem de primeira. Também influenciado pelo Hitchcock, um clima fantasmagórico de ameaça constante transforma esse mystery murder num dos mais representativos do gênero, guiado por personagens dúbios e inconstantes, repulsivos.

O Ventre Negro da Tarantula (Paolo Cavara, 1971)

Um assassino de capa e luvas pretas: quem já não viu isso antes? Inspirado nessa descrição, Cavara cria um mistério de assassinato recheado de sensualidade ao usar como vitimas mulheres em um salão de beleza, e aqui entra sua perversão: o modus operandi do assassino é paralisar suas vitimas com longas agulhas e abrir suas barrigas com uma enorme faca. As capas e luvas negras são inspiradas em Bava, e o plot de mistério em outro filme do Argento, “O Pássaro das Plumas de Cristal“, mas Cavara traz uma direção mais regrada e uma ótima trilha do Ennio Morricone, fato que tem trazido ao filme mais atenção, mesmo apos ter sido considerado como um dos menores do gênero.

O Segredo do Bosque dos Sonhos (Lucio Fulci, 1972)

Oh Fulci, grande mestre, dai coragem aos novos cineastas, pra terem coragem de mostrar crianças fumando, esquartejadas, criticar a burrice preenchida pelo misticismo, jogar lama na cara da hipocrisia“. Lucio Fulci, junto com Bava e Argento, formam o trio dos mestres do giallo, e nessa peça ele não apenas constrói um filme onde o sadismo entra pelos olhos e poros de quem esta assistindo, mas assassina algo que você jamais esperou: a passividade frente ao que se esta vendo. Tomando uma série de assassinatos infantis em um pequeno vilarejo italiano como pretexto, Fulci traz um quadro de personagens que não importa o quanto apareçam, funcionam como engrenagens para mostrar a podridão e a perversão do comportamento humano. Bruxas, padres, assassinos misteriosos, esqueletos, sangue, sangue, pavor: esta instaurada a paranoia para uma das obras mais perturbadoras e contundentes do cinema mundial. A critica a religião é uma das armas mais fortes do filme, tanto que obra e diretor foram excomungados pela Igreja Católica. A fantástica trilha sonora foi composta por Riz Ortolani, o mesmo do “Holocausto Canibal”, e possui em seu elenco uma brasileira que foi descoberta pelo Luchino Visconti, a Florinda Balkan.

O Longo Cabelo da Morte (Antonio Margheriti, 1964)

Um pouco longo demais, talvez seja esse o único defeito desse filme, que em outros pontos representa tao bem o clima gótico e fantástico do giallo sobrenatural, antes de virar contos sobre cidades e assassinos pervertidos. Em um enredo de reviravoltas e vinganças, a personagem de Barbara Steele, Helen, com seus hipnóticos olhos e longos cabelos, é acusada de bruxaria e queimada na fogueira, e sua filha arremessada de um penhasco. Apos levantar do tumulo, começa um plano de vingança contra um Lord que a abusava e seus acusadores. O filme possui uma bela fotografia em P&B, e foi filmado nos famosos estúdios de Cinecitta, o que confere ao filme uma bela produção, apesar do conteúdo infame de corpos reanimados e esqueletos rodeados por ratos.

Mondo Cane (Paolo Cavara, Gualtiero Jacopetti e Franco Prosperi; 1962)

“Tudo o que você vê neste filme é real. Se algumas imagens parecem ser chocantes, é porque ha coisas chocantes acontecendo pelo mundo”. E assim da-se início uma das obras mais perturbadoras e sem noção do cinema, inaugurando o estilo Shockumentary. Cenas do cotidiano operário alemão e italiano, ao longo de outras de tribos do Sul Asiático, poderiam ser uma ótima fonte antropológica para se comparar sociedades, se não fosse a abordagem cruel do filme: violência animal, gente comendo cobra, cachorro, patos sendo estufados com comida, um cemitério aquático que abriga os piores tubarões devoradores de homens, e outros homens se vingando desses tubarões forçando garganta a dentro ouriços venenosos, cadáveres sendo maquiados, um sem fim de bizarrices! O artista francês Yves Klein, que aparece em um segmento do filme mostrando sua arte sobre o azul calmamente, teria tempos depois ao assistir esse filme em Cannes o primeiro ataque do coração que o levaria a morte. Em tempos de infâncias fascinada com Faces da Morte, e tais eventos bizarros já saturados por Discovery Channel’s da vida, o filme perdeu o impacto que já teve um dia, mas seu barulho foi tanto na época ao ser retratado como “puramente real”, que seus realizadores rapidamente entregaram que alguns eventos foram encenados, ou reconstruídos. O que não diminui a força que a montagem do filme traz ao comparar culturas ocidentais e orientais, questionando o que é real e falso, permitido e proibido, ético e anti-ético.

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EDRD

Eduardo Pininga - 25 anos, pesquisa música e estuda jornalismo.